terça-feira, outubro 03, 2006

Entrei na banca de revista e comprei um DVD (Eclipse de uma Paixão) assim que paguei a mercadoria ouvi uma confunsão do lado de fora da banca. Pelos extensos corredores do terminal rodoviário do Rio de Janeiro uma mulher desesperada gritava por socorro..." me ajudem , vocês não veêm que estou morrendo ?"... a questão feita em desespero me fez gelar o sangue. Nunca vi alguém morrendo na minha frente, e não queria ve-lo, não naquela noite.
Me aproximei, notando imediatamente que a mulher não tinha lesão, sangramento e não aparentava nada de errado externamente, a não ser uma angustia que se traduzia em gritos e lágrimas torrentes.
Um homem com uma grande bolsa na mão a acompanhava enquanto os seguranças da rodoviária tentavam em vão acalma-la. Ela correu e uma aglomeração em volta da pobre mulher em desespero a deteu por alguns instantes. Me eproximei então vi que uma outra mulher com a mão na testa dela tentava em vão expulsar um suposto "demônio"... , porque o fanatisno e a ignorância tem as mão dadas... até mesmo numa rodoviária.
Neste circo bizarro, onde o espetáculo de correria e desespero e angústia, me afetava de maneira estranha, eu fazia parte de uma platéia completamente desarmada pela situação, a falta de informação corria rapidamente em todos os comentários ao redor
A mulher se desesperou um pouco mais com o improviso de exorcismo, novamente saiu, não corria mais, exausta talvez pelo proprio esforço de seus gritos.
Mais uma vez passara por mim. Seus pedidos de ajuda me cortavam o coração. Logo atrás dela vinha o mesmo homem com a bolsa grande, rosto abatido, uma expressão de tristeza.
Oque aconteceu ? Perguntei ao homem em tom baixo, encobrindo meu proprio temor por não saber como ajudar. O homem com a expressão cansada não tirou os olhos da mulher..."Sou esposo dela , ela tem síndrome do pânico, está tendo uma crise. Ela foi medicada com diazepan a pouco tempo atrás..." Ele se foi sem terminar a frase. Tinha somente seu amor, e mais nada, não sabia oque fazer, estava claro, mesmo assim não a deixaria longe do seu olhar.
Repentinamente notei a rodoviária cheia, a multidão, o movimento, o vai e vem dos indiferentes, e a reação dos tocados pelo desespero da mulher por onde ela passava, mão ao peito, lágrimas manchando o rosto. Agora eu estava elucidado, uma crise a cada segundo lhe arrancava de toda razão e controle, e o terminal para mim, que já passei por ali tantas vezes distraído, me pareceu então cada vez mais cheio, mais movimentado, mais caótico.
Três moças pararam, indagando oque poderia estar acontecendo. Esclareci sobre a doença, a crize e a dose de diazepan. "Sou farmaceutica, diazepan não é o remédio certo para oque ela tem..." Uma das moças disse, num tom desgostoso.
Olhamos para mulher cercada pelos seguranças. A moça pediu as outras duas para que olhassem as bagagens..."Vamos lá..." me falou a moça como seu eu pudesse fazer algo. Mesmo desacreditado, fui até o esposo e apresentei-o a farmaceutica.
Enquanto a moça conversava com o esposo, olhei para mulher ainda em desespero, que já começava a se afastar. Tomei-a pela mão, e lhe perguntei seu nome. Ela me disse o seu nome entre lágrimas e exclamações sem sentindo.
"Segure minha mão... confie em mim." Falei. Minha voz veio como uma ordem, segura como de quem soubesse oque fazer. Eu precisava de tempo para pensar no que faria.
"Confie em mim..." Disse pausadamente. Enquanto isso conduzia-a para um canto mais isolado, queria retira-la do picadeiro bizzarro que só nos humanos e nossa morbida curiosidade pelo sofrimento alheio conseguem produzir.
"Olhe para mim...aperte minha mão, sinta que estou aqui..." senti a mulher apertando minha mão com mais firmeza, era um sinal de que eu havia ganhado dela alguma confiança. Eu não sabia ainda oque fazer, mas de alguma maneira, estava conseguindo alcança-la dentro do caos onde a sindrome a havia jogada.
Ela se encostou na parede, e agachou-se, o mesmo quadro de desespero se mantinha em seu rosto. Fiz o mesmo a frente dela.
- Oque a senhora esta sentindo ?
- Um medo muito grande...ai meu Deus me ajuda.
- Medo de que ?
- Não sei explicar...tenho sindrome do pânico...
Me assustei com a consciência da doença. Ela sabia oque estava acontecendo, sabia oque tinha, mas não tinha o controle. Ela continuou...
- Eu tive uma depressão muito grande e depois tive esta doença..oh meu Deus...a minha vida está destruída...me ajuda.
Sua voz era um lamento de quem pede socorro a um deus surdo. De qualquer maneira eu havia estabelecido um contato com ela e se aquele deus a quem ela pedia ajuda estava surdo eu não estava. Eu precisava tirar a mente daquela mulher de dentro da rodoviária, fazer com que ela se desligasse daquele ambiente tumultuado.
- A senhora tem filhos ?
- Tenho dois, uma menina linda... 15 anos, e um menino de 12...
De repente como uma tempestade que vai se acalmando... ela foi me contando a cada pergunta que eu fazia, sobre sua infância, sobre as suas boas lembranças, seus filhos, e já não havia aquele tom agustiante... entre um soluço e outro, por ter havido chorado por tanto tempo, a mulher foi recuperando a calma que a doença havia lhe roubado instantes atrás.
Seu esposo, um homem já com o rosto marcado pelo tempo, mas com o olhar carinhoso, se aproximou e sorriu ao ver que ela se acalmara.
Acompanhei-os até para fora da rodoviária.
Depois voltei. Sentei-me em um dos bancos espalhados pelos corredores. Eu estava cansado, me sentia carregado, como se um peso grande tivesse sido colocado sobre meu corpo. Chorei um pouco, não sei ao certo a razão, mas agradeço a Deus por me mostrar que ele não é surdo.

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